Um Encontro Inesperados
O interior da aeronave tremia.
O rugido dos motores atravessava as paredes metálicas e fazia vibrar as armas presas aos suportes. Uma luz vermelha pulsava sobre nossas cabeças, iluminando por alguns segundos os rostos dos soldados diante de mim antes de mergulhá-los novamente nas sombras.
Dez soldados.
Era tudo o que tínhamos.
Dez jovens recém-formados prestes a invadir território inimigo.
Alguns tentavam esconder o medo olhando para o chão. Outros verificavam suas armas pela terceira ou quarta vez, embora soubessem perfeitamente que estavam carregadas. Um deles mantinha as mãos unidas entre os joelhos, apertando os próprios dedos com tanta força que os nós estavam brancos.
Eu respirava fundo tentando parecer mais confiante do que realmente estava.
Era meu dever.
Dei um passo à frente.
— Soldados!
As conversas cessaram.
Dez pares de olhos se voltaram para mim.
— Nossa missão é simples de explicar e provavelmente infernal de executar.
Entraremos no território dos Droinds e seguiremos até a base TNH9. Nosso objetivo é localizar os projetores responsáveis pelo campo de força, destruí-los e transmitir o sinal para que nossos mísseis façam o restante do trabalho.
Fiz uma pequena pausa.
Ninguém desviou o olhar.
— Depois disso, chegaremos ao ponto de extração e voltaremos para casa.
Alguns pareceram respirar melhor.
Então completei:
— Mas existe um problema.
O silêncio ficou ainda mais pesado.
— Se formos descobertos antes de concluirmos a missão... não esperem misericórdia.
O pouco de esperança que eu havia colocado nos rostos deles desapareceu.
Droinds.
Só o nome já causava desconforto.
Máquinas inteligentes. Rápidas. Precisas.
Construídas com uma tecnologia que os Nigen ainda estavam longe de dominar completamente.
Enfrentá-los de frente não era coragem.
Era suicídio.
Vi um dos soldados abaixar a cabeça.
Outro engoliu em seco.
Ótimo, Dary.
Excelente discurso.
Consegui deixar todo mundo ainda mais apavorado.
Respirei fundo.
— Ei.
Alguns levantaram os olhos novamente.
— Olhem para mim.
Esperei até que todos o fizessem.
— Eu sei o que vocês estão pensando. Sei porque estou pensando exatamente a mesma coisa.
O silêncio mudou.
Agora eles realmente me escutavam.
— Os Droinds são mais fortes. São mais rápidos. Possuem armas melhores e conhecem aquele território muito melhor do que nós. Se isso fosse apenas uma disputa de força, provavelmente já teríamos perdido antes mesmo de saltar desta aeronave.
Apertei o punho.
— Mas nós temos algo que eles não podem tirar de nós.
Um soldado franziu a testa.
— Temos um motivo para voltar.
Passei os olhos por cada rosto.
— Cada homem e cada mulher dentro desta aeronave deixou alguém esperando. Uma mãe. Um pai. Um irmão. Uma esposa. Um filho. Talvez apenas um amigo... não importa. Existe alguém esperando que vocês voltem.
Minha voz ficou mais firme.
— Nós representamos os Nigen hoje. Mas não estamos lutando por algum símbolo estampado em uma bandeira. Estamos lutando pelas pessoas que amamos. Por nossas casas. Por cada homem, cada mulher e cada criança que não pode estar aqui para se defender.
Algumas cabeças começaram a se erguer.
— Então sintam medo.
Eles pareceram surpresos.
— Sintam medo porque só um idiota pisaria naquele território sem sentir. Mas não permitam que ele controle vocês.
Bati com o punho contra o peito.
— Hoje entramos juntos.
Olhei para todos.
— E, pelos deuses, sairemos juntos.
Um dos soldados bateu a mão contra a armadura.
Outro fez o mesmo.
Em poucos segundos, o interior da aeronave foi tomado pelos gritos.
— NIGEN!
— NIGEN!
— NIGEN!
Sorri discretamente.
Talvez o discurso não tivesse sido tão ruim.
— Preparem-se! Estamos chegando ao ponto de salto!
Os soldados começaram a se levantar.
Enquanto todos seguiam para a parte traseira da aeronave, senti uma mão tocar meu ombro.
Era Susi.
Ela me encarou durante alguns segundos com uma expressão séria.
Então abriu aquele sorriso debochado que eu conhecia muito bem.
— Bonito.
Ergui uma sobrancelha.
— Gostou?
— Não.
Meu sorriso desapareceu.
— Foi uma bela bosta.
Ela soltou uma gargalhada.
— Eu sabia.
— A parte do "pelos deuses" foi especialmente dramática.
— Eu estava tentando inspirá-los!
— Inspirou. Pelo menos agora eles vão morrer motivados.
— Susi...
Ela riu novamente.
— Estou brincando.
Olhei para os soldados.
A empolgação já estava diminuindo.
A realidade voltava aos poucos.
— Não sei se isso vai dar certo — murmurei.
Susi parou de sorrir.
Por um instante, não era mais a sniper debochada.
Era apenas minha amiga.
— Também não sei.
Olhei para ela.
Susi deu dois tapas no meu braço.
— Mas vamos descobrir juntos.
A luz vermelha dentro da aeronave mudou para verde.
PONTO DE SALTO ALCANÇADO.
As portas traseiras começaram a se abrir.
Um vento brutal invadiu a cabine.
— Vamos, Dary!
Susi agarrou meu braço.
— Hora de parar de falar e começar a trabalhar.
E saltamos.
• • •
O vento golpeou meu rosto.
Durante alguns segundos, tudo o que existia era o céu cinzento, a floresta abaixo e o som violento do ar passando pelo meu corpo.
Um a um, os paraquedas de desaceleração foram acionados.
Caímos entre as árvores.
Quando meus pés tocaram o chão, imediatamente saquei a arma.
— Formação defensiva!
Os soldados se espalharam.
Nada.
Apenas a floresta.
Desativei o mecanismo do paraquedas e finalmente observei melhor o lugar.
Aquilo não era o que eu esperava encontrar em território Droind.
A floresta era...
Bonita.
Não apenas preservada.
Perfeita.
Carvalhos enormes erguiam seus troncos em direção ao céu enquanto pinheiros se misturavam à vegetação. A chuva fina descia através das copas, fazendo pequenas gotas brilharem sobre as folhas.
Uma raposa surgiu entre alguns arbustos.
Olhou para nós.
Depois desapareceu.
Mais adiante, dois pequenos guaxinins correram assustados.
Franzi a testa.
— Estranho...
Susi apareceu ao meu lado.
— O quê?
— Tudo isso.
— A floresta?
Assenti.
— Esperava encontrar metal, fábricas, fumaça... qualquer coisa.
Ela observou as árvores.
— Máquinas também podem gostar de árvores.
— Máquinas não gostam de nada.
Susi me lançou um olhar de lado.
— Tem certeza?
Não respondi.
— Formação em coluna! Temos um longo caminho até TNH9.
Seguimos.
Durante quase meia hora, não encontramos nenhum sinal do inimigo.
Isso deveria ter me tranquilizado.
Mas fazia exatamente o contrário.
O silêncio parecia artificial.
Como se alguma coisa estivesse nos observando.
Então encontramos o lago.
Parei involuntariamente.
A água era tão transparente que conseguíamos enxergar pedras no fundo mesmo a vários metros da margem. Pequenos cardumes passavam entre plantas aquáticas enquanto gotas de chuva criavam incontáveis círculos sobre a superfície.
Não havia óleo.
Não havia lixo.
Não havia qualquer sinal de poluição.
Olhei para o scanner preso ao meu braço.
Nada.
— Impressionante — disse Kem atrás de mim.
— Não estamos aqui para turismo — respondi.
— Sim, senhor.
Continuei andando, mas olhei novamente para o lago.
Por algum motivo, aquela preservação me incomodava.
Porque significava que talvez estivéssemos errados sobre mais coisas do que imaginávamos.
• • •
Meia hora depois, finalmente estávamos próximos do objetivo.
TNH9 ficava a poucas centenas de metros.
Até aquele momento, nenhum combate.
Nenhuma patrulha.
Nenhum alarme.
Nada.
Talvez os deuses realmente estivessem do nosso lado.
Foi exatamente quando pensei isso que nossa sorte acabou.
Ergui o punho.
Todo o grupo parou.
— Contato.
À nossa frente havia uma clareira.
O lugar parecia pertencer a outro mundo.
Violetas cresciam entre a grama. Rosas brancas ocupavam pequenos círculos naturais formados entre as árvores. A chuva parecia ter diminuído apenas naquela região, e alguns poucos raios de luz atravessavam as nuvens.
Mas nenhuma das flores me interessava.
No centro delas havia alguém.
Uma garota.
Estava ajoelhada diante das violetas.
Seus cabelos negros caíam quase até o chão. A pele era branca, extremamente clara, e partes do corpo revelavam delicados circuitos brilhando sob o que deveria ser carne.
Não precisava do scanner.
Era uma Droind.
Estranhamente pequena.
Talvez um metro e cinquenta.
Ela passou os dedos delicadamente sobre uma das flores.
Não arrancou.
Apenas tocou.
Como se tivesse medo de machucá-la.
— Interessante... — Susi sussurrou.
Fiz um sinal para que permanecesse em silêncio.
— Susi, leve 01 e 02 para o flanco esquerdo. Procurem altura. Se ela nos detectar e demonstrar hostilidade, vocês terão autorização para atirar.
Susi confirmou com a cabeça.
Antes de partir, aproximou o rosto do meu ouvido.
— Dary...
— O quê?
— Acho que encontramos sua futura namorada.
Virei lentamente para ela.
Susi segurava o riso.
— Vai fundo.
Senti meu rosto esquentar.
— Eu nunca ficaria com um robô.
— Claro.
— Estou falando sério.
— Naturalmente.
— Susi.
Ela se afastou rindo silenciosamente.
Idiota.
Esperei que ela assumisse posição.
Então alguma coisa se moveu perto do lago.
Virei a arma imediatamente.
Nada.
Olhei para meu scanner.
Nenhum sinal.
Mesmo assim...
Eu tinha visto.
— 03, 04 e 05.
Três soldados se aproximaram.
— Avancem até aquela formação de pedras. Devagar.
Um deles hesitou.
— Algum problema, tenente?
— Movimento próximo ao lago.
Ele olhou na direção indicada.
— Meu scanner não detecta nada.
— O meu também.
— Então talvez...
— Talvez não seja nada. Mas prefiro parecer paranoico e continuar vivo.
Ele concordou.
Começou a andar, mas parou.
— Ah, senhor?
— O quê?
— Meu nome é Kem.
Suspirei.
— Eu sei.
— Então poderia parar de me chamar de 03?
— Durante operação, números evitam confusão.
— Mas Kem tem três letras.
Encarei-o.
Ele sorriu.
— Vá logo.
— Sim, senhor.
Os três começaram a atravessar a clareira.
Vinte metros.
Quinze.
Dez.
Então aconteceu.
O soldado atrás de Kem pisou em falso.
— Merda!
Seu pé afundou em uma pequena depressão e ele caiu.
A arma atingiu uma pedra.
CLANG.
Naquela floresta silenciosa, o barulho pareceu uma explosão.
A garota parou.
Meu coração também.
Lentamente...
Muito lentamente...
Ela virou a cabeça.
Seus olhos se fixaram nos três soldados.
— Droga.
A Droind se levantou.
O movimento era perfeitamente humano.
Até que seu braço começou a se transformar.
Placas metálicas deslizaram umas sobre as outras. Circuitos brilharam. Onde antes existia uma mão, surgiu o cano de uma arma.
— CONTATO HOSTIL!
Tudo aconteceu de uma vez.
— Susi! Procure posição elevada!
— Já estou indo!
— 06 e 07! Benevolência! Quero barreiras!
Os dois bateram as mãos contra seus dispositivos.
Uma energia verde começou a se formar ao redor dos braços.
— 08!
O soldado correu para meu lado.
— Senhor!
— Traço de Audácia. Agora!
Os olhos dele brilharam.
— Ativado!
A Droind continuava caminhando em direção aos três soldados.
— Ninguém dispara até minha ordem!
— Senhor?
— Estamos dentro do território deles. Ela ainda não atacou.
A arma da Droind começou a acumular energia.
Uma luz azul cresceu dentro do cano.
— Agora atacou.
Apontei minha arma.
— FOGO!
O 08 foi o primeiro.
Os disparos cortaram a clareira.
A Droind desviou.
Não apenas se moveu.
Ela desapareceu de onde estava e reapareceu vários metros ao lado.
— Rápida demais!
A arma de seu braço brilhou.
— BARREIRA!
06 ergueu as duas mãos.
Uma parede de energia verde explodiu diante de nós.
O primeiro disparo atingiu a barreira.
BOOOOM!
O impacto fez meus dentes vibrarem.
— Mantenha!
— Estou tentando!
Outro tiro.
Depois outro.
— Kem! Tire aqueles homens dali!
Os três correram.
— Cobertura! — gritei.
Os soldados começaram a disparar.
Mas uma esfera translúcida se formou ao redor da Droind.
As balas ricochetearam.
— Senhor! Não estamos atravessando o campo!
— Permissão para Traços! — Kem pediu.
— Concedida!
Os soldados ativaram seus poderes.
Pequenas esferas alaranjadas começaram a substituir os projéteis convencionais.
O primeiro impacto deformou o campo.
O segundo fez a superfície vibrar.
O terceiro abriu uma pequena rachadura.
— Continuem!
A Droind percebeu.
Parou de disparar.
E recuou.
— Está fugindo! — alguém gritou.
— Não!
Meu estômago afundou.
Ela não estava fugindo.
Estava aumentando a distância.
— TODOS PARA TRÁS!
Tarde demais.
Duas estruturas surgiram atrás dos ombros da garota.
Mísseis.
— Droga!
Um deles foi lançado.
— 07!
A barreira surgiu.
O míssil colidiu contra ela.
Por meio segundo achei que resistiria.
Então a energia verde rachou.
— SHINI!
A barreira explodiu.
O mundo desapareceu em fogo.
Fui arremessado contra o chão.
Meus ouvidos começaram a apitar.
Terra.
Fumaça.
Sangue.
Levantei a cabeça.
— Todos... todos bem?
06 estava caído.
Kem tentava se levantar.
Will tossia.
Então vi Shini.
Ele estava imóvel.
Na frente de todos nós.
Seu corpo havia recebido o impacto depois que a barreira rompeu.
Alguma coisa queimou dentro do meu peito.
Minha visão mudou.
O mundo ganhou uma tonalidade amarela.
Senti meus olhos brilharem.
Raiva.
— Susi.
Silêncio.
— SUSI!
A voz dela veio pelo comunicador.
— Estou vendo.
— Agora!
Três disparos ecoaram praticamente juntos.
A Droind ergueu seu campo.
Dois tiros foram bloqueados.
O terceiro atravessou.
Atingiu diretamente o suporte de mísseis.
A estrutura foi arrancada de suas costas.
Ela caiu.
Antes que alguém pudesse me impedir, comecei a correr.
Atravessei a clareira.
Ela tentou se afastar.
Arrastava-se entre as rosas brancas.
A mesma criatura que minutos atrás havia lutado contra dez soldados agora tentava desesperadamente fugir de mim.
Seus olhos encontraram os meus.
Medo.
Era impossível.
Mas estava lá.
Medo.
Puxei a baioneta.
Shini estava morto.
Ela havia matado Shini.
Ergui a arma.
Então três sombras passaram sobre nós.
Olhei para cima.
Meu sangue gelou.
Droinds.
Modelos militares.
Três.
Duas unidades apontavam suas armas diretamente para nós.
A terceira mirava as árvores onde Susi estava escondida.
— Não...
Não tínhamos poder de fogo para aquilo.
Nem perto.
Ouvi armas sendo carregadas atrás de mim.
Meus soldados também haviam entendido.
Aquela poderia ser nossa última batalha.
Talvez nossa última respiração.
Então é assim?
Apertei a baioneta.
É assim que termina?
Uma luz vermelha cruzou a floresta.
BOOOOOOM!
Uma gigantesca esfera de energia atingiu um dos Droinds.
A explosão iluminou toda a clareira.
Quando minha visão voltou, havia pedaços metálicos caindo do céu.
— Que diabos...?
Olhei para o lago.
Figuras saíam lentamente da floresta.
Orelhas pontudas.
Armaduras ornamentadas.
Armas de energia.
Driadales.
E eles não pareciam estar ali para nos salvar.
• • •
Os Driadales possuíam uma ligação quase religiosa com a natureza. Fisicamente eram semelhantes aos Nigen, embora suas orelhas pontudas os denunciassem imediatamente.
Viviam décadas além de nós.
E eram conhecidos por uma característica particularmente inconveniente naquele momento:
Não gostavam de invasores.
O primeiro disparo contra nós confirmou isso.
— COBERTURA!
Corremos.
Droinds responderam ao ataque.
Em segundos, a clareira se transformou em um inferno.
Energia azul.
Projéteis vermelhos.
Árvores partindo.
Flores sendo queimadas.
Corpos caindo.
— RECUEM! — gritei. — RECUEM!
Corri em direção às árvores.
Um Driadale apontou para mim.
Vi o disparo vindo.
Não teria tempo.
06 surgiu entre nós.
— TENENTE!
A barreira de Benevolência se ergueu.
O impacto quase o derrubou.
— Vai! — ele gritou.
08 começou a disparar por cima de seu ombro.
— Eu cubro vocês!
Corremos.
Olhei para trás apenas uma vez.
Foi suficiente.
Kem havia conseguido alcançar nossa posição.
Will também.
Mas os três homens que haviam atravessado a clareira...
Não.
Dois dos nossos snipers também caíram.
— Susi! — gritei no comunicador.
Nada.
— SUSI!
Estática.
Meu peito apertou.
Mas não havia tempo.
Nos escondemos atrás de uma enorme formação de árvores enquanto a batalha continuava.
Durante quinze minutos, ouvimos apenas morte.
Explosões.
Gritos.
Disparos.
Depois...
Silêncio.
Esperei mais alguns segundos.
Um Droind surgiu sobre a clareira, voando de forma instável.
Faltava-lhe um braço.
Ele desapareceu na direção de TNH9.
— Acabou? — Will perguntou.
— Não sei.
Olhei para os outros.
— Vamos verificar.
Voltamos.
A clareira que minutos atrás parecia saída de uma pintura já não existia.
As rosas brancas estavam vermelhas.
Partes de Droinds estavam espalhadas entre corpos Driadales.
Algumas árvores queimavam.
E entre as flores...
Meus homens.
Shini.
Os snipers.
Os outros.
Meu estômago se contraiu.
Virei para o lado.
Vomitei.
Fiquei alguns segundos apoiado contra uma árvore tentando recuperar o ar.
Era minha missão.
Minha unidade.
Meus soldados.
Eu havia prometido que sairíamos juntos.
Mentira.
Uma voz rompeu o silêncio.
— Não...
Congelei.
— Por favor...
Olhei.
A pequena Droind ainda estava viva.
Arrastava-se pelo chão.
Atrás dela vinha um Driadale ferido.
Ele segurava uma faca.
— Deixe-me...
A voz dela falhava, misturando tons humanos e ruídos eletrônicos.
— Por favor... me deixe em paz.
O Driadale levantou a lâmina.
Me movi antes de pensar.
Corri.
Ele percebeu tarde demais.
Segurei-o por trás e enterrei minha faca.
Um golpe rápido.
O corpo caiu.
Fiquei parado, respirando pesadamente.
Então olhei para a Droind.
Ela estava imóvel.
Nos encaramos.
Eu poderia terminar aquilo.
Talvez devesse.
— Vá.
Ela não respondeu.
— Eu disse para ir.
Com dificuldade, a garota conseguiu ficar de pé.
Pequenas estruturas se abriram em suas costas.
Asas mecânicas.
Ela começou a subir.
Então parou.
Olhou para mim.
— Obrigada...
A voz parecia diferente agora.
Mais suave.
— ...por me salvar.
E desapareceu entre as árvores.
— TENENTE!
Virei.
Kem estava tremendo.
Não de medo.
De ódio.
— Por que fez isso?!
— Kem...
— Ela matou o Shini!
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Ela matou meu amigo!
Aproximei-me.
— Eu sei.
— Então por que a deixou ir?!
— Porque ela não podia mais lutar.
— Isso não importa!
— Importa para mim.
Ele fechou os punhos.
— Você não é uma Alma Justílico?!
Sua voz falhou.
— Então faça justiça! Ela matou um dos nossos! Você tinha o assassino dele na sua frente e simplesmente deixou aquela coisa fugir!
Olhei para ele.
— Sua Alma é de Benevolência, correto?
Ele hesitou.
— Sim, senhor.
— Então me responda uma coisa.
Kem permaneceu em silêncio.
— Acha que Shini ficaria feliz vendo você executar alguém indefeso?
— Ela não é alguém.
— Responda.
Ele apertou os dentes.
— Talvez.
— Talvez?
Silêncio.
— Conseguiria dormir hoje sabendo que matou uma garota que não podia mais se defender?
Kem apontou para o céu.
— Aquilo não é uma garota!
Sua voz ecoou pela clareira.
— É uma máquina! Um pedaço de metal! Uma coisa sem alma!
Olhei na direção em que ela havia desaparecido.
Depois encarei Kem novamente.
— Você ouviu ela implorar.
Ele ficou quieto.
— Viu o medo nos olhos dela.
— Pode ser programação.
— Talvez.
Aproximei-me.
— Mas diga, Kem... se algo teme morrer, tenta sobreviver, sente medo e implora pela própria vida... em que momento nós decidimos que aquilo não possui sentimentos apenas porque foi construído de maneira diferente?
Ele não respondeu.
— Ela poderia ter me atacado quando a ajudei.
Olhei para minha mão ainda manchada de sangue.
— Não fez.
Kem abaixou a cabeça.
— Todos os seres deste mundo possuem uma alma.
Olhei para os corpos espalhados entre as flores.
— Nigen.
— Driadales.
Olhei para os destroços metálicos.
— Talvez até os Droinds.
Voltei os olhos para ele.
— E se isso for verdade... você realmente quer ser o homem responsável por destruir uma?
Kem permaneceu calado.
Coloquei a mão sobre seu ombro.
— Sinta raiva. Sinta tristeza. Shini merece ser lembrado.
Minha voz ficou mais baixa.
— Mas nunca permita que o ódio escolha quem você será.
Ele assentiu lentamente.
Afastei-me.
— 08.
O soldado se virou.
— Senhor.
— Qual é seu nome?
Ele piscou, surpreso.
— Will.
Sorri discretamente.
— Certo, Will. Quanto falta para TNH9?
Ele consultou o dispositivo.
— Cinquenta metros.
— Então vamos terminar o que viemos fazer.
Kem me olhou.
— E os números?
— Esqueça os números.
Ele quase sorriu.
Quase.
Começamos a andar.
Não demorou para ouvirmos alguma coisa acima de nós.
Galhos se movendo.
Will levantou a arma.
— Droinds?
Kem fez o mesmo.
— Ou Driadales?
Observei as árvores.
Então sorri.
— Nenhum dos dois.
Apontei minha arma.
Disparei contra um galho.
— AAAAH!
Uma figura despencou da árvore e caiu em um arbusto.
Kem arregalou os olhos.
— Tenente?!
Uma cabeça surgiu entre as folhas.
— SEU IDIOTA!
Meu sorriso aumentou.
Susi saiu do arbusto coberta de folhas.
— Sério, Dary?! Precisava atirar?!
— Eu sabia que você estava ali.
— Poderia ter me acertado!
— Não acertei.
— Esse não é o ponto!
— Além disso...
Apontei para a orelha dela.
— Seu comunicador continua ligado.
Susi congelou.
Levou a mão lentamente até o aparelho.
— Droga.
Will soltou uma risada.
Até Kem sorriu.
Por alguns segundos, depois de toda aquela morte, aquele pequeno momento pareceu devolver alguma humanidade ao grupo.
Susi limpou a roupa.
— Certo.
Ela pegou o rifle.
— Vamos acabar com essa missão antes que qualquer outra coisa dê errado.
Olhei para ela.
— Nunca diga isso.
— O quê?
BOOOOOOM!
A explosão veio da direção de TNH9.
Nós quatro nos viramos.
Uma enorme coluna de fumaça negra subia além das árvores.
Kem suspirou.
— Mas que diabos é isso agora?
Não respondi.
Porque naquele instante...
Eu senti.
Minha respiração parou.
O frio percorreu minha coluna.
Não era apenas medo.
Eu conhecia aquela sensação.
Aquela presença.
O mesmo peso sufocante.
A mesma escuridão.
A mesma coisa que senti naquela noite.
Na noite em que perdi minha família.
— Não...
Comecei a correr.
— Dary! — Susi gritou.
Não parei.
— Dary, o que foi?!
Ela e os outros correram atrás de mim.
— Apenas reze!
— Pelo quê?!
Olhei para frente.
— Para não ser aquilo que estou pensando!
Saímos da floresta e alcançamos um pequeno mirante acima da base.
Parei.
Meu sangue gelou.
TNH9 estava queimando.
Mas aquelas não eram chamas comuns.
O fogo era negro.
Torcia-se sobre as estruturas metálicas como se estivesse vivo.
Partes inteiras da instalação haviam sido destruídas.
Droinds estavam espalhados pelo chão.
E sentado tranquilamente na borda do mirante...
Havia um homem.
Alto.
Terno negro.
Sapatos perfeitamente limpos apesar da lama.
Ele observava a destruição abaixo como alguém contemplando uma bela paisagem.
Em sua cabeça...
Dois pequenos chifres.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
— Não pode ser...
Susi olhou para mim.
— Dary?
O homem inclinou levemente a cabeça.
Havia nos percebido.
— Por que eles estão aqui...? — murmurei.
Ele começou a se levantar.
Saquei minha arma.
— TODOS EM POSIÇÃO!
Will apontou.
Kem fez o mesmo.
Mas suas mãos tremiam.
— Senhor...
Ele olhou para mim.
— Por que você está com tanto medo?
Não tirei os olhos daquela criatura.
— Porque aquilo não é um homem.
A figura começou a virar lentamente em nossa direção.
— Então o que é?
Engoli em seco.
— Um Akuma.
Kem paralisou.
Will também.
O homem finalmente mostrou o rosto.
À primeira vista, poderia passar facilmente por um Nigen.
Era justamente isso que tornava os Akumas tão aterrorizantes.
Podiam esconder os chifres.
Podiam assumir nossos rostos.
Podiam caminhar entre nós.
Mas havia algo que jamais conseguiriam esconder completamente.
Sua presença.
Aquela aura sufocante podia ser sentida antes mesmo de serem vistos.
O Akuma nos observou.
Primeiro minha arma.
Depois Susi.
Kem.
Will.
Por fim, seus olhos voltaram para mim.
Seu sorriso começou pequeno.
Então cresceu.
Largo demais.
Calmo demais.
Cruel demais.
Ninguém falou.
O fogo negro consumia TNH9 atrás dele.
O vento começou a soprar.
Durante alguns segundos intermináveis, ouvimos apenas o estalar das chamas.
Então o Akuma abriu os braços.
E falou:
— Ora, ora...
Sua voz era tranquila.
Quase divertida.
O sorriso aumentou.
— Parece que as coisas acabaram de ficar um pouco mais interessantes.
◆
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